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<channel><title><![CDATA[BEATRIZ REY - Blog]]></title><link><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes]]></link><description><![CDATA[Blog]]></description><pubDate>Thu, 09 Apr 2026 06:03:51 -0700</pubDate><generator>Weebly</generator><item><title><![CDATA[Por que eu queria a invasão alienígena]]></title><link><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/por-que-eu-queria-a-invasao-alienigena]]></link><comments><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/por-que-eu-queria-a-invasao-alienigena#comments]]></comments><pubDate>Tue, 14 Feb 2023 02:02:12 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.beatrizrey.com/randomnotes/por-que-eu-queria-a-invasao-alienigena</guid><description><![CDATA[ Ontem a minha fam&iacute;lia passou um tempo discutindo o que faria diante de uma invas&atilde;o alien&iacute;gena no grupo do WhatsApp. As not&iacute;cias de objetos n&atilde;o identificados&nbsp;v&ecirc;m dos Estados Unidos, da China, do Canad&aacute; e do Uruguai. Meu irm&atilde;o do meio disse que atacaria os invasores caso eles quisessem levar a minha sobrinha Bela. A minha m&atilde;e radicalizou e anunciou que o sonho dela &eacute; ser abduzida. Enquanto isso, eu s&oacute; conseguia pensa [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:auto;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.beatrizrey.com/uploads/1/1/8/0/118023146/3982585_orig.jpg" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; border-width:1px;padding:3px; max-width:100%" alt="Picture" class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="display:block;"><span><span>Ontem a minha fam&iacute;lia passou um tempo discutindo o que faria diante de uma invas&atilde;o alien&iacute;gena no grupo do WhatsApp. As not&iacute;cias de objetos n&atilde;o identificados&nbsp;v&ecirc;m dos Estados Unidos, da China, do Canad&aacute; e do Uruguai. Meu irm&atilde;o do meio disse que atacaria os invasores caso eles quisessem levar a minha sobrinha Bela. A minha m&atilde;e radicalizou e anunciou que o sonho dela &eacute; ser abduzida. Enquanto isso, eu s&oacute; conseguia pensar que gostaria de substituir os seres humanos por extraterrestres. Diante da poss&iacute;vel (mas improv&aacute;vel) invas&atilde;o alien&iacute;gena, percebi que n&atilde;o me sinto habitante deste mundo.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>Eu queria que o sentimento fosse de nostalgia. Como aquele t&atilde;o bem descrito por Woody Allen em &ldquo;Meia-Noite em Paris&rdquo;. O estranhamento seria s&oacute; temporal. &ldquo;Deveria ter nascido na d&eacute;cada de 20&rdquo;, eu diria, &ldquo;ou de 30 ou de 40&rdquo;. Infelizmente, trata-se de sentimento mais extenso e profundo. O deslocamento tampouco &eacute; geogr&aacute;fico. &Eacute; verdade que me sinto em casa em Lisboa (e que tive um choque ao sair de l&aacute; e voltar para os Estados Unidos na semana passada). Mas mesmo l&aacute; senti estranhamento ao meu redor.</span></span><br /><br /><span><span>O deslocamento &eacute; em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s pessoas. Talvez eu esteja despreparada para viver em um mundo que se tornou superficial em todos os sentidos. Vejam: eu cresci lendo. As minhas ideias sobre rela&ccedil;&otilde;es entre humanos e rela&ccedil;&otilde;es dos humanos com o mundo vieram todas dos livros de fic&ccedil;&atilde;o e poesia que li desde a pr&eacute;-adolesc&ecirc;ncia. O menino do dedo verde chamado Tistu me mostrou muito cedo que pessoas queridas como o jardineiro Bigode e o meu av&ocirc; Bol&atilde;o morrem (o meu av&ocirc; Bol&atilde;o merece um conto &ndash; ou um livro &ndash; s&oacute; sobre ele). Desde que li esse livro e perdi o meu av&ocirc; percebi que, diante da falta de clareza sobre quanto tempo temos aqui, &eacute; preciso conhecer as pessoas profundamente.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>A literatura me ensinou a ser curiosa sobre o universo das pessoas. At&eacute; hoje tenho uma lista de coisas que queria ter perguntado ao meu av&ocirc; Bol&atilde;o. Do que ele tinha medo? Por que ele voltou para a escola para terminar o ensino m&eacute;dio com 50 anos? Ele chegou a amar a minha av&oacute;? Por que ele era t&atilde;o sozinho? Era solid&atilde;o ou tristeza? Nunca pude fazer essas perguntas. Como n&atilde;o tive tempo de conhec&ecirc;-lo, tento conhecer cada pessoa que faz parte da minha vida. J&aacute; fiz zilh&otilde;es de perguntas assim aos meus pais, irm&atilde;os, cunhada e os amigos que adotei como irm&atilde;os pela vida. &Eacute; com essa curiosidade que consigo enxergar as pessoas ao meu redor &ndash; o que, para mim, &eacute; condi&ccedil;&atilde;o para qualquer tipo de rela&ccedil;&atilde;o.</span></span><br /><br /><span><span>O problema &eacute; que no mundo h&aacute; quase ningu&eacute;m interessado em enxergar o outro. Esse processo &eacute; desconfort&aacute;vel porque exige vulnerabilidade. Eu n&atilde;o posso reclamar: para al&eacute;m da minha fam&iacute;lia, enxergo muito bem um pequeno grupo de amigos com os quais falo quase todos os dias. No ano passado, o meu h&aacute;bito de esporadicamente sentar para beber sozinha em bares me presenteou at&eacute; com um encontro desse com estranhos. Fiz uma viagem &agrave; Coney Island e sentei para tomar um mojito em um bar perto dos parques de divers&atilde;o. Conversei com o homem &agrave; minha esquerda, que por algum motivo sabia tudo de cinema (depois descobri que ele tinha sido cr&iacute;tico de cinema do </span><em><span>The New York Times</span></em><span>), e o homem &agrave; minha direita, que era eleitor de Donald Trump e tinha o sotaque do nova-iorquino italiano. O homem do meio, o dono do bar, entrou na conversa (ele &eacute; casado com uma brasileira e conhece at&eacute; o Lenine). N&atilde;o sei bem quantas horas passei ali ou quantos mojitos eu tomei. Mas sa&iacute; de l&aacute; com o meu universo mais expandido e bonito: consegui enxergar bem tr&ecirc;s estranhos em uma tarde de sexta-feira.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>De resto, olho para as pessoas como se elas fossem alien&iacute;genas. Ou como se fosse eu a extraterrestre. Tudo &eacute; r&aacute;pido e transacional. Tudo acontece na superf&iacute;cie. Tudo acontece a partir da perspectiva do eu e n&atilde;o da perspectiva do outro. O deslocamento &eacute; esse: vivo em um mundo em que a maior parte das pessoas perdeu o interesse no outro. A empatia com o outro. O cuidado com o outro. E no espa&ccedil;o que os outros ocupam tamb&eacute;m. Pare&ccedil;o uma vitrola quebrada, mas o fechamento da Livraria Cultura e do anexo do Espa&ccedil;o Ita&uacute; em S&atilde;o Paulo refor&ccedil;ou esse sentimento em mim. O desinteresse pelo cuidado com as rela&ccedil;&otilde;es individuais &eacute; magnificado e se transforma na falta de cuidado com as rela&ccedil;&otilde;es coletivas.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>N&atilde;o sei se haver&aacute; invas&atilde;o alien&iacute;gena. Muito provavelmente n&atilde;o, o que significa que os seres humanos n&atilde;o ser&atilde;o substitu&iacute;dos por extraterrestres. Para piorar, talvez a sensa&ccedil;&atilde;o de deslocamento se acentue em mim com o passar da idade. Essa semana uma amiga me perguntou o que eu fa&ccedil;o quando o deslocamento incomoda. Fui discutir isso com a minha m&atilde;e, que me incentivou a acreditar em algo. Religi&atilde;o n&atilde;o &eacute; algo que fa&ccedil;a sentido para mim. Eu prefiro acreditar na arte, em especial na literatura, na poesia, na m&uacute;sica, na dan&ccedil;a e no cinema. Quem escreve livros o faz por curiosidade sobre o ser humano. A minha ponte com o mundo eu encontro ali.</span></span></div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Um estudo sobre Lila Cerullo]]></title><link><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/um-estudo-sobre-lila-cerullo]]></link><comments><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/um-estudo-sobre-lila-cerullo#comments]]></comments><pubDate>Mon, 02 Jan 2023 00:09:35 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.beatrizrey.com/randomnotes/um-estudo-sobre-lila-cerullo</guid><description><![CDATA[ Estava no aeroporto de Nova York quando li A Amiga Genial pela primeira vez. Nunca esquecerei a sensa&ccedil;&atilde;o de estranheza que senti quando pensei em Lila Cerullo desaparecendo do mundo aos 60 anos sem deixar registro de que existiu. Lila queria &ldquo;volatizar-se, queria dissipar-se em cada c&eacute;lula, e que ningu&eacute;m encontrasse nenhum vest&iacute;gio seu.&rdquo; N&atilde;o deixou nenhuma roupa, nenhum sapato. Todas as fotos sumiram. O seu computador tamb&eacute;m. O objeti [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:auto;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.beatrizrey.com/uploads/1/1/8/0/118023146/lila_orig.png" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; border-width:1px;padding:3px; max-width:100%" alt="Picture" class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="display:block;"><span><span>Estava no aeroporto de Nova York quando li </span><em><span>A Amiga Genial</span></em><span> pela primeira vez. Nunca esquecerei a sensa&ccedil;&atilde;o de estranheza que senti quando pensei em Lila Cerullo desaparecendo do mundo aos 60 anos sem deixar registro de que existiu. Lila queria &ldquo;volatizar-se, queria dissipar-se em cada c&eacute;lula, e que ningu&eacute;m encontrasse nenhum vest&iacute;gio seu.&rdquo; N&atilde;o deixou nenhuma roupa, nenhum sapato. Todas as fotos sumiram. O seu computador tamb&eacute;m. O objetivo de Lila n&atilde;o era s&oacute; desaparecer. Queria apagar toda a vida que deixara para tr&aacute;s, como escreve Ferrante. O que leva algu&eacute;m a querer se pulverizar dessa maneira?</span></span><br /><br /><span>Se voc&ecirc; n&atilde;o leu a tetralogia napolitana, sugiro que pare de ler este texto agora, j&aacute; que trato de spoilers. Escrevi sobre a for&ccedil;a de Lila Cerullo em outro <a href="https://www.beatrizrey.com/randomnotes/um-estudo-sobre-elena-ferrante-e-o-masculino" target="_blank">texto</a>. N&atilde;o me lembro de ter lido sobre outro personagem feminino t&atilde;o extraordin&aacute;rio quanto Lila. A amiga genial &eacute; ela. Lila nunca foi escolarizada mas sempre demonstrou capacidade de aprender qualquer coisa muito facilmente. Quando est&aacute; apaixonada por Nino Sarratore, Lila l&ecirc; livros e em pouqu&iacute;ssimo tempo est&aacute; pronta para desconstruir o que ele pensa. Quando decide se dedicar &agrave; programa&ccedil;&atilde;o com computadores, n&atilde;o demora muito para que ela aprenda tudo a ponto de saber mais do que o seu companheiro Enzo Scanno, que estudava o assunto h&aacute; anos. Se tivesse frequentado a escola e a universidade (como Len&ugrave;), Lila teria escrito livros como os de Ferrante. A intelig&ecirc;ncia dela &eacute; natural, quase fluida (invejo esse tipo de intelig&ecirc;ncia &ndash; o aprendizado para mim vem com muito esfor&ccedil;o). E Lila sabe sobre as coisas da letra e do mundo. Ela inverte a l&oacute;gica de onde mora usando os problemas e os v&iacute;cios que estruturam o bairro. Usa os irm&atilde;os Solara como quer ao longo da s&eacute;rie inteira, tornando-se ela mesma a figura que mete medo em quem mora ali ao final da s&eacute;rie.&nbsp;</span><br /><br /><span><span>Lila &eacute; tamb&eacute;m a personagem mais curiosa dos livros. Ainda crian&ccedil;a, escreve um livro ao qual Elena Ferrante (infelizmente) nunca nos d&aacute; acesso chamado </span><em><span>La Fata Blu</span></em><span>. O livro abre a cabe&ccedil;a m&aacute;gica de Len&ugrave;, praticamente tornando-a escritora. Ao final da s&eacute;rie, Lila tamb&eacute;m decide estudar a hist&oacute;ria de N&aacute;poles e traz com ela Imma, filha de Len&ugrave; e Nino. Lila absorve o significado de cada parte da cidade e passa-o adiante para Imma como se aquele fosse o conhecimento mais incr&iacute;vel do mundo (e de fato &eacute;). As p&aacute;ginas em que isso acontece me deixaram maravilhada.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>Diante do tamanho de Lila, da imensid&atilde;o que ela materializa em forma de ser humano, como explicar que ela decida desaparecer? H&aacute; sinais ao longo da s&eacute;rie que ela sempre quis fazer isso. Por exemplo, Lila recorta e reconstr&oacute;i uma foto sua com o vestido de casamento a ponto de n&atilde;o ser reconhecida. Ela frequentemente fala sobre como vivencia um processo chamado dissolving margins, no qual as bordas que definem as pessoas e as coisas v&atilde;o desaparecendo (preciso escrever um texto s&oacute; sobre isso). Para mim, Lila quer desaparecer porque deseja profundamente parar de ser fortaleza para os outros &ndash; para a sua fam&iacute;lia, para o seu marido, para as pessoas do bairro, para Len&ugrave;, para toda e qualquer pessoa que depende da for&ccedil;a que ela emana para existir. O desaparecimento para ela &eacute; sin&ocirc;nimo de liberdade.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>Mas o estopim que faz com que ela concretize o seu desejo &eacute; o sumi&ccedil;o de sua filha, Tina, no final do &uacute;ltimo livro. &Eacute; esse o epis&oacute;dio que abre o espa&ccedil;o definitivo para o seu desaparecimento. Tina desaparece e n&atilde;o h&aacute; sinal do que aconteceu com ela. Se foi roubada, se morreu. O desejo ao qual me refiro acima &ndash; a vontade de desaparecer para n&atilde;o ser fortaleza para os outros &ndash; s&oacute; n&atilde;o aparece com Tina. At&eacute; Rino, o primeiro filho de Lila com Stefano, depende da fortaleza de Lila. Tina n&atilde;o. Com Tina Lila &eacute; leve. O desaparecimento dela torna o desaparecimento de Lila obrigat&oacute;rio.</span></span><br /><br /><span><span>Len&ugrave; desonra a mem&oacute;ria de Lila ao contar a sua hist&oacute;ria na tetralogia napolitana. Tudo o que Lila queria era a n&atilde;o-exist&ecirc;ncia e os livros fazem justamente o contr&aacute;rio: eternizam Lila como a fortaleza que ela nunca pediu para ser. Lila passou a ser a fortaleza de milhares de mulheres. Lila merecia mais, mas talvez esse seja o fardo de mulheres-fortalezas: elas precisam ser imortais para se tornar fonte de energia e for&ccedil;a para outras pessoas. As mulheres-fortalezas carregam o mundo.</span></span></div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O que está em jogo com a decisão do STF sobre o orçamento secreto]]></title><link><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/o-que-esta-em-jogo-com-a-decisao-do-stf-sobre-o-orcamento-secreto]]></link><comments><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/o-que-esta-em-jogo-com-a-decisao-do-stf-sobre-o-orcamento-secreto#comments]]></comments><pubDate>Tue, 20 Dec 2022 16:08:25 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.beatrizrey.com/randomnotes/o-que-esta-em-jogo-com-a-decisao-do-stf-sobre-o-orcamento-secreto</guid><description><![CDATA[  A decis&atilde;o do STF que torna o or&ccedil;amento secreto inconstitucional foi muito celebrada no Twitter esta semana. O uso das emendas de relator-geral pelos congressistas nos &uacute;ltimos anos (com o aval do governo Jair Bolsonaro) &eacute; realmente nefasto: ningu&eacute;m sabe bem quem mandou quanto dinheiro, com qual crit&eacute;rio e para onde usando a rubrica RP9. Mas a decis&atilde;o do STF n&atilde;o necessariamente enterra a possibilidade de se criar outro arranjo no lugar. Est [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div class="wsite-spacer" style="height:50px;"></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span><span>A decis&atilde;o do STF que torna o or&ccedil;amento secreto inconstitucional foi muito celebrada no Twitter esta semana. O uso das emendas de relator-geral pelos congressistas nos &uacute;ltimos anos (com o aval do governo Jair Bolsonaro) &eacute; realmente nefasto: ningu&eacute;m sabe bem quem mandou quanto dinheiro, com qual crit&eacute;rio e para onde usando a rubrica RP9. Mas a decis&atilde;o do STF n&atilde;o necessariamente enterra a possibilidade de se criar outro arranjo no lugar. Este texto argumenta que o balan&ccedil;o de poder entre o Executivo e o Legislativo mudou nos &uacute;ltimos quatro anos, j&aacute; que o Congresso sai do governo Jair Bolsonaro empoderado. Diante dessa altera&ccedil;&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel que o Legislativo busque alternativas para manter sua nova prerrogativa or&ccedil;ament&aacute;ria nos pr&oacute;ximos anos. </span></span><br /><br /><span><span>O fortalecimento do poder Legislativo come&ccedil;ou em meados dos anos 2000. Neste </span><a href="https://www.wilsoncenter.org/blog-post/brazils-congress-becoming-more-powerful-thats-not-necessarily-bad-democracy"><span style="color:rgb(17, 85, 204); font-weight:400">texto</span></a><span> para o Wilson Center, conto como esse processo se deu em tr&ecirc;s frentes. O Congresso ficou mais forte como formulador de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, contrapeso ao Executivo e definidor de pol&iacute;tica or&ccedil;ament&aacute;ria. Importante para este texto s&atilde;o as reformas feitas em 2015 e 2019, que tornaram impositivas as emendas or&ccedil;ament&aacute;rias individuais e coletivas. Tenho insistido que at&eacute; 2019, o fortalecimento se deu de forma institucional. </span></span><br /><br /><span><span>Quando Jair Bolsonaro resolveu abrir um canal de di&aacute;logo com o Congresso na metade de seu mandato, encontrou um Executivo desprovido do leque ferramental do qual dispunha antes dessas reformas. Bolsonaro tamb&eacute;m n&atilde;o distribuiu cargos para aliados partid&aacute;rios para montar base legislativa. Diante desse cen&aacute;rio, os presidentes da C&acirc;mara dos Deputados e do Senado se apropriaram das emendas de relator-geral para distribuir recursos a aliados do governo. O arranjo do or&ccedil;amento secreto fortaleceu o Congresso de maneira n&atilde;o-institucionalizada, informal, j&aacute; que tudo era acordado nos bastidores. Bolsonaro tamb&eacute;m abdicou de suas prerrogativas legislativas, o que s&oacute; acentuou esse processo. </span></span><br /><br /><span><span>A decis&atilde;o do STF n&atilde;o necessariamente significa o fim desse tipo de arranjo, principalmente no longo prazo. H&aacute; quem argumente que o Executivo agora pode usar a rubrica RP2 para montar base legislativa. Como me explicou o especialista em emendas or&ccedil;ament&aacute;rias Rodrigo Faria, o governo Bolsonaro n&atilde;o usou essa ferramenta porque n&atilde;o comp&ocirc;s minist&eacute;rios com partidos aliados (a distribui&ccedil;&atilde;o desses recursos est&aacute; atrelada aos minist&eacute;rios). Ou seja: esse arranjo n&atilde;o necessariamente foi testado neste &uacute;ltimo governo. Pode ser que as verbas via RP2 sejam &uacute;teis nesse momento, j&aacute; que Luiz In&aacute;cio Lula da Silva distribuir&aacute; cargos ministeriais a partidos aliado? Pode. Mas a distribui&ccedil;&atilde;o de cargos em si pode n&atilde;o ser suficiente diante da &acirc;nsia de poder de um Legislativo que se fortaleceu muito ao longo dos &uacute;ltimos anos. </span></span><br /><br /><span>Notem que h&aacute; dois processos paralelos acontecendo aqui. O primeiro &eacute; o aumento do poder or&ccedil;ament&aacute;rio do Congresso. O Legislativo quer mandar mais no dinheiro. O segundo &eacute; a redu&ccedil;&atilde;o do poder de barganha do Executivo, como consequ&ecirc;ncia de tudo o que discuto acima. Diante dessas mudan&ccedil;as, fica dif&iacute;cil entender como se dar&aacute; o jogo a partir daqui. <a href="https://www.estadao.com.br/politica/sem-orcamento-secreto-tendencia-e-o-centrao-conseguir-mais-cargos-de-confianca-leia-analise/" target="_blank">S&eacute;rgio Pra&ccedil;a</a> escreveu que o Centr&atilde;o deve receber mais cargos de confian&ccedil;a. Certamente. Mas n&atilde;o h&aacute; garantia de que isso segure a &acirc;nsia dos congressistas. </span><br /><br /><span><span>Segundo o </span><a href="https://www.estadao.com.br/politica/coluna-do-estadao/pt-e-lira-combinam-futuro-do-orcamento-secreto-em-2023/"><span style="color:rgb(17, 85, 204); font-weight:400">Estad&atilde;o</span></a><span>, o mais prov&aacute;vel &eacute; que os R$ 20 bilh&otilde;es previstos para a emenda de relator-geral no pr&oacute;ximo ano sejam repartidos igualmente entre os minist&eacute;rios e emendas individuais. A exist&ecirc;ncia de um governo disposto a coordenar processos de formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e barganha entre poderes pode fazer diferen&ccedil;a nesse sentido. Ao contr&aacute;rio de Bolsonaro, Lula d&aacute; sinais de que quer retomar o protagonismo do Executivo. Resta saber o pre&ccedil;o que os congressistas cobrar&atilde;o para que isso aconte&ccedil;a. </span></span>&#8203;</div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[​Um estudo sobre Elena Ferrante e o masculino]]></title><link><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/um-estudo-sobre-elena-ferrante-e-o-masculino]]></link><comments><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/um-estudo-sobre-elena-ferrante-e-o-masculino#comments]]></comments><pubDate>Sat, 10 Dec 2022 11:08:01 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.beatrizrey.com/randomnotes/um-estudo-sobre-elena-ferrante-e-o-masculino</guid><description><![CDATA[ 	 		 			 				 					 						          					 								 					 						     					 							 		 	   Quando tinha doze anos, o meu melhor amigo, o menino pelo qual eu era apaixonada, com o qual passava tardes lendo gibi e jogando algum v&iacute;deo game que eu detestava (detesto v&iacute;deo game), disse que eu nunca seria uma mulher. O an&uacute;ncio foi feito desse jeito, sem nenhum titubeio, no primeiro dia em que fomos ao shopping sozinhos. A nossa turma do col&eacute;gio era razoavelmente grande. Noss [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-multicol"><div class="wsite-multicol-table-wrap" style="margin:0 -15px;"> 	<table class="wsite-multicol-table"> 		<tbody class="wsite-multicol-tbody"> 			<tr class="wsite-multicol-tr"> 				<td class="wsite-multicol-col" style="width:50%; padding:0 15px;"> 					 						  <div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="https://www.beatrizrey.com/uploads/1/1/8/0/118023146/published/img-1620.jpg?1670842118" alt="Picture" style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>   					 				</td>				<td class="wsite-multicol-col" style="width:50%; padding:0 15px;"> 					 						  <div class="wsite-spacer" style="height:50px;"></div>   					 				</td>			</tr> 		</tbody> 	</table> </div></div></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;">Quando tinha doze anos, o meu melhor amigo, o menino pelo qual eu era apaixonada, com o qual passava tardes lendo gibi e jogando algum v&iacute;deo game que eu detestava (detesto v&iacute;deo game), disse que eu nunca seria uma mulher. O an&uacute;ncio foi feito desse jeito, sem nenhum titubeio, no primeiro dia em que fomos ao shopping sozinhos. A nossa turma do col&eacute;gio era razoavelmente grande. Nossas m&atilde;es nos autorizaram a comer e passear por aquele pr&eacute;dio cheio de lojas e restaurantes a c&eacute;u fechado. N&oacute;s passamos por uma loja de m&uacute;sica que vendia fitas cassetes e ele lan&ccedil;ou essa frase na frente dela, me capturando permanentemente. Ele ainda acrescentou que eu n&atilde;o tinha peito e nem bunda, era uma t&aacute;bua lisa e, portanto, n&atilde;o era uma mulher. O que ele disse causou uma dor que eu sentiria diversas vezes ao longo da vida. Diante de sua pequenez como ser humano, resta ao homem nos diminuir. Foi isso o que aconteceu aquele dia no shopping.<br /><br />Aconteceu mais uma vez com o mesmo melhor amigo quando n&oacute;s fizemos cursinho para ingressar em uma escola t&eacute;cnica. Um rapaz sentado ao meu lado puxou conversa comigo. Ele queria saber mais sobre o livro que eu estava lendo. Era um rapaz de olhos castanhos curiosos. Foi a primeira vez que um homem se interessou por mim. Eu estava feliz por perceber que poderia, sim, ser mulher (ainda precisava da aprova&ccedil;&atilde;o masculina) quando o meu amigo me cutucou e disse: d&aacute; para voc&ecirc; ficar quieta? Eu emudeci. Ao final da aula, ele acrescentou: por que voc&ecirc; n&atilde;o ficava quieta? Ali&aacute;s, por que voc&ecirc; est&aacute; cheirando mal? Eu diminu&iacute; de tamanho. Ser&aacute; que eu tinha me esquecido de tomar banho?<br /><br />Durante o ensino m&eacute;dio, foquei exclusivamente no vestibular. S&oacute; estudava literatura, gram&aacute;tica, hist&oacute;ria, geografia, ingl&ecirc;s e reda&ccedil;&atilde;o. Tive um namoradinho que eu mesmo dispensei porque precisava ocupar a cabe&ccedil;a com Clarice Lispector. Tive outro namoradinho que tinha medo de mim e n&atilde;o conseguiu nem me dar um beijo. A faculdade, entretanto, foi cruel. O meu primeiro namorado de verdade terminou comigo dias depois de eu question&aacute;-lo sobre o porqu&ecirc; de eu n&atilde;o conseguir sentir o amor dele por mim (mais sobre esse figura abaixo). Tive muitos rolos e fui punida socialmente pelos homens por ser clara sobre o meu interesse, por dan&ccedil;ar, por beber, por ser livre. Algumas mulheres me puniram tamb&eacute;m. Tive um namoradinho que sumiu um m&ecirc;s e terminou comigo no dia do meu anivers&aacute;rio porque (adivinhem) tinha medo de mim.<br /><br />N&atilde;o deve surpreender o leitor deste texto que eu tenha me casado com um homem f&iacute;sica e emocionalmente abusivo. A minha forma&ccedil;&atilde;o como mulher se deu a partir do julgamento masculino. N&atilde;o havia o feminino dentro de mim sem levar em considera&ccedil;&atilde;o o masculino fora de mim. Foram anos sofridos at&eacute; o dia em que eu me libertei de tudo: do marido, do julgamento, do masculino como um todo.<br /><br />Fui livre, inclusive dentro de um relacionamento saud&aacute;vel. Encontrei um parceiro que quase me enxergou e que n&atilde;o me diminu&iacute;a. Por ele ter quase me enxergado, tornamo-nos amigos. Mas mesmo ele me diminuiu. Foi com esse homem que eu aprendi a amar. Disse a ele como isso aconteceu. O que eu aprendi, ao que eu sou grata. N&atilde;o houve resposta a n&atilde;o ser &ldquo;sim&rdquo;. S&oacute; eu aprendi, s&oacute; ele me deu. Da n&atilde;o-resposta, do n&atilde;o-di&aacute;logo devo inferir que n&atilde;o deixei legado algum? O n&atilde;o-di&aacute;logo, ali&aacute;s, foi como o meu primeiro namorado, aquele l&aacute; de cima, me diminuiu em um revival que nunca deveria ter acontecido. Ele se dizia apaixonado e fazia muitos planos. Houve um desentendimento e ele desapareceu. Ser&aacute; que eu inventei o relacionamento com ele?<br /><br />N&atilde;o sei quantas de n&oacute;s fomos moldadas na forma masculina, essa forma que insiste em nos diminuir, nos fazer de saco de pancada emocional, que nos deixa duvidando de n&oacute;s mesmas. Talvez todas n&oacute;s, de um jeito ou de outro, tenhamos sido moldadas assim. Isso aparece muito nos livros da Elena Ferrante. Como a protagonista de &ldquo;The Lying Life of Adults&rdquo;, a opini&atilde;o do meu pai sobre mim importava muito mais do que a da minha m&atilde;e at&eacute; eu me libertar do masculino. Hoje a opini&atilde;o dos dois tem peso igual. Por que o masculino tem esse peso? E por que aceitamos que o masculino nos diminua ao longo da vida? Em nome de qu&ecirc;?<br /><br />Volto &agrave; Elena Ferrante. J&aacute; disse isso muitas vezes: a personagem mais forte da s&eacute;rie napolitana &eacute; Lila Cerullo. O masculino tentou mold&aacute;-la desde pequena. Lila apanhava do pai. Foi, ali&aacute;s, jogada da janela de sua casa pelo pr&oacute;prio pai. Foi desejada pelos homens de todo o bairro. Foi espancada pelo marido. Foi detonada emocionalmente por Nino Sarratore. Mas Lila chega ao final da s&eacute;rie n&atilde;o s&oacute; sendo a menina forte que era quando crian&ccedil;a mas tamb&eacute;m a mulher que mete medo no bairro todo, em mulheres e homens. Lila n&atilde;o se deixou moldar nem pelo masculino e nem pelo pr&oacute;prio feminino (j&aacute; que o exemplo feminino em N&aacute;poles era o de submiss&atilde;o). Len&ugrave; se adequa ao universo masculino constantemente ao longo da s&eacute;rie. Lila rejeita esse universo e se constr&oacute;i a partir da sua pr&oacute;pria forma. A for&ccedil;a de Lila &eacute; algo extraordin&aacute;rio.<br /><br />Se voc&ecirc; chegou at&eacute; aqui e &eacute; mulher, &eacute; isso o que eu desejo para voc&ecirc;, para mim, para todas n&oacute;s: fa&ccedil;amos as nossas pr&oacute;prias formas. Elena Ferrante escreveu livros para nos mostrar que isso &eacute; poss&iacute;vel.</div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Manuel Alcántara]]></title><link><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/manuel-alcantara]]></link><comments><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/manuel-alcantara#comments]]></comments><pubDate>Sat, 19 Nov 2022 14:20:23 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.beatrizrey.com/randomnotes/manuel-alcantara</guid><description><![CDATA[Manuel Alcántara (foto do site da Fundación Manuel Alcántara) &#8203;&#8203;Em 2006, quando ainda morava em S&atilde;o Paulo, fiz seis meses de aula de flamenco. Cheguei a aprender a dan&ccedil;ar uma pequena sevillana inteira. O amor pelo flamenco foi &agrave; primeira vista. Talvez porque posso dan&ccedil;ar sozinha. Ou porque a dor das m&uacute;sicas que embalam a dan&ccedil;a n&atilde;o s&atilde;o puxadas de um lugar de tristeza, mas de for&ccedil;a. As mulheres que dan&ccedil;am flamenco [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:auto;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.beatrizrey.com/uploads/1/1/8/0/118023146/published/manuel-alcantara-maquina-escribir.jpg?1668869281" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; border-width:1px;padding:3px; max-width:100%" alt="Picture" class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption">Manuel Alc&aacute;ntara (foto do site da Fundaci&oacute;n Manuel Alc&aacute;ntara)</span></span> <div class="paragraph" style="display:block;"><br />&#8203;<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />&#8203;Em 2006, quando ainda morava em S&atilde;o Paulo, fiz seis meses de aula de flamenco. Cheguei a aprender a dan&ccedil;ar uma pequena sevillana inteira. O amor pelo flamenco foi &agrave; primeira vista. Talvez porque posso dan&ccedil;ar sozinha. Ou porque a dor das m&uacute;sicas que embalam a dan&ccedil;a n&atilde;o s&atilde;o puxadas de um lugar de tristeza, mas de for&ccedil;a. As mulheres que dan&ccedil;am flamenco s&atilde;o fortes. As que cantam tamb&eacute;m. &Eacute; o caso de Mayte Mart&iacute;n, cuja m&uacute;sica descobri h&aacute; tr&ecirc;s anos, quando morava em Camillus, NY. Estava voltando da universidade onde trabalhava quando o algoritmo do Spotify me depositou "<a href="https://open.spotify.com/track/7GcAlvmQk6sZ2pMgvvJT0b?si=9df2c0a39208422e" target="_blank">Por la Mar Chica del Puerto</a>" no carro. Ouvi a can&ccedil;&atilde;o no repeat at&eacute; chegar em casa. Passei meses ouvindo todos os discos dela. Nessa semana, Mayte voltou ao meu algoritmo. S&oacute; ent&atilde;o percebi que o disco dela de que mais gosto - "<a href="https://open.spotify.com/album/7gGashTkh1meQvVo6UsxVy?si=-Cfn5eU4R1mL4PZrF1-k4A" target="_blank">Al Cantar a Manuel</a>" - n&atilde;o canta s&oacute; o flamenco, mas tamb&eacute;m a poesia. Nele, Mayte canta os poemas de Manuel Alc&aacute;ntara, jornalista e poeta espanhol, no ritmo e na dor do flamenco. "Por la Mar Chica del Puerto" e todas as outras m&uacute;sicas do disco nasceram como poemas. Todos podem ser lidos neste <a href="https://www.juntadeandalucia.es/export/drupaljda/antologia_manuel_alcantara.pdf" target="_blank">livro</a> bel&iacute;ssimo de Alc&aacute;ntara, que re&uacute;ne outros poemas, como o abaixo, um dos meus preferidos.<br /><br /><strong>Soneto para acabar un amor</strong><br /><br />He quemado el pa&ntilde;uelo, por si acaso<br />se pudiera tejer de nuevo el lino.<br />Le sobra la mitad del vaso al vino<br />y m&aacute;s de media noche al cielo raso.<br /><br />Ten&iacute;a que pasar esto. Y el caso<br />es que estando yo siempre de camino<br />y estando t&uacute; parada, no te vi y no<br />me ha cogido el amor nunca de paso.<br /><br />Puede que salga a relucir la historia<br />porque nunca se acaba lo que acaba,<br />que se queda a vivir en la memoria.<br /><br />Echa a andar el amor que te he tenido<br />y se va no s&eacute; d&oacute;nde. Donde estaba.<br />De donde no debiera haber salido.</div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Estudo sobre Nino Sarratore]]></title><link><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/estudo-sobre-nino-sarratore]]></link><comments><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/estudo-sobre-nino-sarratore#comments]]></comments><pubDate>Tue, 08 Nov 2022 01:53:51 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.beatrizrey.com/randomnotes/estudo-sobre-nino-sarratore</guid><description><![CDATA[ Eu gosto muito dos livros da Elena Ferrante porque ela retrata os homens como eles s&atilde;o: imaturos, ego&iacute;stas e violentos. Sei que fa&ccedil;o uma generaliza&ccedil;&atilde;o com essa frase - meus dois irm&atilde;os, por exemplo, s&atilde;o o oposto disso - mas a verdade &eacute; que a massa dos homens pode ser descrita assim. Passei muito tempo esse ano tentando entender se havia alguma qualidade redentora em Nino Sarratore, o homem que consegue desestabilizar at&eacute; a fortaleza [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:auto;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.beatrizrey.com/uploads/1/1/8/0/118023146/tumblr-pjyiivy6c11v5e4kpo5-1280_orig.png" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; border-width:1px;padding:3px; max-width:100%" alt="Picture" class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="text-align:left;display:block;"><span><span>Eu gosto muito dos livros da Elena Ferrante porque ela retrata os homens como eles s&atilde;o: imaturos, ego&iacute;stas e violentos. Sei que fa&ccedil;o uma generaliza&ccedil;&atilde;o com essa frase - meus dois irm&atilde;os, por exemplo, s&atilde;o o oposto disso - mas a verdade &eacute; que a massa dos homens pode ser descrita assim. </span></span><br /><br /><span><span>Passei muito tempo esse ano tentando entender se havia alguma qualidade redentora em Nino Sarratore, o homem que consegue desestabilizar at&eacute; a fortaleza chamada Lila Cerullo. Que Len&ugrave; se desestabilize por Nino &eacute; esperado. Len&ugrave; &eacute; ing&ecirc;nua, rom&acirc;ntica, a&eacute;rea. Lila n&atilde;o. Lila sabe onde pisa e pisa com a certeza de se saber quem &eacute;. Ela amedontra os homens. Em </span><em><span>The Story of the Lost Child</span></em><span><em>,</em> o &uacute;ltimo livro da s&eacute;rie napolitana, Ferrante escreve (em ingl&ecirc;s pois s&oacute; tenho os livros nesse idioma): &ldquo;she was the terrifying woman who, stricken by a great misfortune, carried its potency with her. (...) Lila walked along the stradone with her fierce gaze, toward the gardens, and people lowered their eyes, looked in another direction&rdquo;. Essa &eacute; a Lila que cai na fantasia que Nino Sarratore promete. A fantasia de um homem culto, sens&iacute;vel, misterioso. N&atilde;o demora muito para Lila descobrir que Nino &eacute; s&oacute; fachada. Por tr&aacute;s do cabelo preto enrolado e dos &oacute;culos pequenos est&aacute; um adolescente imaturo e sem responsabilidade emocional. </span></span><br /><br /><span><span>Nino passa pelas v&aacute;rias mulheres que aparecem nos livros da s&eacute;rie napolitana como se elas n&atilde;o fossem mulheres, mas entidades fantasmag&oacute;ricas. Quando Nino est&aacute; tentando conquistar Len&ugrave; e acusa Pietro, o marido dela, de n&atilde;o apoi&aacute;-la profissionalmente, parece que ele, Nino, &eacute; um grande feminista. Mas quando est&aacute; com Len&ugrave;, Nino sequer lembra que ela &eacute; escritora. O maior problema de Nino Sarratore talvez seja esse: ele despersonaliza cada uma das mulheres com as quais se relaciona. As bordas que definem as mulheres desaparecem. Len&ugrave; se sente burra ao lado dele. Ele faz com que Lila se sinta fraca. Escrever essas frases me deixa embasbacada porque as mulheres em geral sabem muito mais sobre a vida do que os homens. As bordas que formam as mulheres s&atilde;o fruto de amadurecimento precoce e constante (o que homens evitam a qualquer custo). O que Nino faz n&atilde;o &eacute; pouca coisa: ele desestrutura o produto do sofrimento de se ser mulher. </span></span><span><span>E faz isso sendo um homem med&iacute;ocre, medroso e incapaz de se responsabilizar por suas pr&oacute;prias a&ccedil;&otilde;es. Ferrante escreve, &ldquo;he was one of those adults who when they play with a child and the child falls and skins his knee behave like children themselves, afraid someone will say: It was you who let him fall.&rdquo; </span></span><br /><br /><span><span>Len&ugrave; e Lila sofrem para lidar com Nino, mas ao fim do &uacute;ltimo volume, aceitam que ele &eacute; o que se revela em suas atitudes (e n&atilde;o em suas palavras): amargo, intrat&aacute;vel e sozinho. Nino chega aos 50 anos desassociado de qualquer rela&ccedil;&atilde;o humana que tenha algum significado. Ferrante diz: &ldquo;Nino was what he wouldn&rsquo;t have wanted to be and yet always had been&rdquo;. Como heran&ccedil;a, Nino deixou a Len&ugrave; uma filha, Imma. Nem a filha parece gerar compaix&atilde;o no pai. Em um determinado momento, Len&ugrave; pensa ter gerado Imma com um fantasma. &ldquo;He forgot about us - Dede, Elsa, Imma, and me - for a long period. He probably forgot about us as soon as I closed the door behind him&rdquo;, diz Len&ugrave;. Nino tenta transformar as mulheres com as quais se relaciona em fantasmas, mas &eacute; ele pr&oacute;prio o fantasma. As mulheres seguem, vivas e lembradas. Os Ninos desaparecem pelo ar, como se nunca nem tivessem existido. </span></span></div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O legislativo]]></title><link><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/o-legislativo]]></link><comments><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/o-legislativo#comments]]></comments><pubDate>Wed, 27 Jul 2022 14:42:21 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.beatrizrey.com/randomnotes/o-legislativo</guid><description><![CDATA[O parlamento islandês ("Althing") é o mais antigo corpo legislativo do qual temos registro  &#8203;O legislativo nasceu em mim h&aacute; onze anos. Na minha vida anterior, escrevi uma reportagem discutindo projetos de lei que tratavam da viol&ecirc;ncia contra professores brasileiros. Um dos projetos chamou a minha aten&ccedil;&atilde;o pelo cuidado com o qual lidava com o tema: o do senador Paulo Paim, que anos depois eu veria no plen&aacute;rio do Senado enquanto fazia pesquisa de campo para [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:auto;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.beatrizrey.com/uploads/1/1/8/0/118023146/published/800px-al-ingi-2012-07.jpg?1658933695" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; border-width:1px;padding:3px; max-width:100%" alt="Picture" class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption">O parlamento island&ecirc;s ("Althing") &eacute; o mais antigo corpo legislativo do qual temos registro </span></span> <div class="paragraph" style="text-align:left;display:block;"><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><span><span>&#8203;O legislativo nasceu em mim h&aacute; onze anos. Na minha vida anterior, escrevi uma reportagem discutindo projetos de lei que tratavam da viol&ecirc;ncia contra professores brasileiros. Um dos projetos chamou a minha aten&ccedil;&atilde;o pelo cuidado com o qual lidava com o tema: o do senador Paulo Paim, que anos depois eu veria no plen&aacute;rio do Senado enquanto fazia pesquisa de campo para a minha tese de doutorado. Li o projeto e fiquei encantada com a possibilidade de resolver os problemas do mundo com a letra, o rito, a discuss&atilde;o e a decis&atilde;o majorit&aacute;ria. Na reportagem, um especialista educacional diz que n&atilde;o se resolveria a viol&ecirc;ncia docente com a edi&ccedil;&atilde;o de leis, mas o estrago em mim j&aacute; estava feito: depois de ler o projeto de Paim, a a&ccedil;&atilde;o legislativa passou a ter contornos m&aacute;gicos na minha cabe&ccedil;a fabuladora de realidades. </span></span><br /><br /><span><span>Fabulei sobre o legislativo durante os anos seguintes, at&eacute; mesmo quando estudei o teorema da impossibilidade de Kenneth Arrow para os exames do doutorado (que p&otilde;e em xeque a pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia da arena legislativa). O Congresso se tornou um lugar m&aacute;gico no meu imagin&aacute;rio de cientista social. Detectar um problema social, procurar uma solu&ccedil;&atilde;o para ele, escrever a solu&ccedil;&atilde;o em termos legais, encaminh&aacute;-la para diversos grupos de debate at&eacute; ela ser votada por um grande grupo, um grupo formado por pessoas obrigatoriamente distintas e que precisam concordar sobre alguma parte da solu&ccedil;&atilde;o. Sei que processos assim, motivados pelo esp&iacute;rito p&uacute;blico, s&atilde;o raros. Mas que apenas um processo desse tenha existido na hist&oacute;ria do mundo &eacute; algo que me coloca atr&aacute;s de respostas sobre como mais deles possam existir. </span></span><br /><br /><span><span>Foi em busca delas que escrevi uma tese de doutorado sobre o que explica a efic&aacute;cia legislativa dos deputados brasileiros. Entre 2018 e 2019, passei quase seis meses na C&acirc;mara dos Deputados conversando com parlamentares e suas equipes, acompanhando reuni&otilde;es de comiss&otilde;es, entrando e saindo do plen&aacute;rio, participando de reuni&otilde;es com o presidente da C&acirc;mara (&agrave; &eacute;poca, Rodrigo Maia), lendo o Regimento Interno, indo em almo&ccedil;o de bancada tem&aacute;tica e muitas vezes s&oacute; andando pelos corredores dos anexos na esperan&ccedil;a de me integrar fisicamente ao processo legislativo. Fiz o mesmo caminhando por dentro das comiss&otilde;es e do plen&aacute;rio. Sentei no sal&atilde;o verde em frente ao plen&aacute;rio e olhei para a movimenta&ccedil;&atilde;o de pessoas entrando e saindo enquanto falavam e alinhavavam. </span></span><br /><br /><span><span>Na semana em que escrevo este texto, estou concluindo sete meses de trabalho como assistente legislativa de um deputado democrata na House of Representatives dos EUA. Ali me dediquei a aprender sobre um processo legislativo regido a regras e estruturas diferentes. Fui feliz no dia em que entendi o papel do Rules Committee (e quando conclu&iacute; que uma comiss&atilde;o dessa seria invi&aacute;vel no contexto brasileiro). Mas fui feliz em tantas outras ocasi&otilde;es. Trabalhei com emendas or&ccedil;ament&aacute;rias. Escrevi memorandos para guiar o meu deputado a falar com a imprensa. Escrevi um op-ed que ele assinou. Monitorei proposi&ccedil;&otilde;es em comiss&otilde;es e no plen&aacute;rio. Dei recomenda&ccedil;&otilde;es de voto diariamente. Participei de uma conversa com ele sobre se ele deveria ou n&atilde;o co-autorar um projeto de lei. Recomendei que ele co-autorasse diversos outros e que assinasse cartas chamando a aten&ccedil;&atilde;o para problemas sociais. Falei com grupos de interesse e com eleitores. Visitei a sua base eleitoral. Propus uma emenda a um projeto de lei em nome dele (que infelizmente n&atilde;o foi para frente). Terminava todos os dias de trabalho cansada - a curva de aprendizagem &eacute; intensa e enorme - mas feliz, muito feliz. </span></span><br /><br /><span><span>Fui feliz tamb&eacute;m entrando todos os dias no pr&eacute;dio do Congresso, que &eacute; um labirinto. Me perdi diversas vezes at&eacute; decorar os caminhos para o gabinete, a cafeteria, o estacionamento. Andei no metr&ocirc; que une os anexos at&eacute; o plen&aacute;rio. N&atilde;o pude entrar no plen&aacute;rio, mas caminhei pelos arredores da rotunda e debaixo da pr&oacute;pria rotunda, onde passei algumas tardes. Olhei para tudo por todos os &acirc;ngulos como se esperasse o processo legislativo se manifestar fisicamente diante dos meus olhos. </span></span><br /><br /><span><span>O processo legislativo: essa ideia abstrata que, na verdade, significa o </span><span>nosso </span><span>processo, o processo pelo qual n&oacute;s decidimos quais leis regir&atilde;o o comportamento da sociedade em que vivemos. H&aacute; uma cena no seriado </span><span>Borgen </span><span>em que um pol&iacute;tico diz: &ldquo;We forget that the bills are us. We are the law. The law is us&rdquo;. Meu fasc&iacute;nio pelo legislativo est&aacute; no espelho: ele reflete o que somos. Em Bras&iacute;lia, pude observar n&oacute;s mesmos dentro do processo legislativo. Nos EUA, pude ser eu mesma o processo legislativo. Termino esse per&iacute;odo mais encantanda pela contradi&ccedil;&atilde;o que define o legislativo: ele &eacute; a nossa l&aacute;stima com o potencial de ser a nossa sa&iacute;da. Espero poder estud&aacute;-lo cada vez mais para entender em quais circunst&acirc;ncias ele toma contornos de sa&iacute;da. </span></span><br /><br />&#8203;</div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[On Hannah Arendt and responsibility]]></title><link><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/on-hannah-arendt-and-responsibility]]></link><comments><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/on-hannah-arendt-and-responsibility#comments]]></comments><pubDate>Tue, 03 May 2022 18:03:37 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.beatrizrey.com/randomnotes/on-hannah-arendt-and-responsibility</guid><description><![CDATA[I often go back to Hannah Arendt in moments of professional and personal crises. Yesterday as I read the news about the leak of a Supreme Court decision draft that would overturn Roe v. Wade I thought about her definition of education: the point at which we decide whether we love the world enough to assume responsibility for it and by the same token save it. We can think about citizenship in the same way. Becoming a citizen involves deciding that we love the world enough to assume responsibility [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div class="paragraph">I often go back to Hannah Arendt in moments of professional and personal crises. Yesterday as I read the news about the leak of a Supreme Court decision draft that would overturn Roe v. Wade I thought about her definition of education: the point at which we decide whether we love the world enough to assume responsibility for it and by the same token save it. We can think about citizenship in the same way. Becoming a citizen involves deciding that we love the world enough to assume responsibility for it. But how can we do that in a world that seems increasingly hostile?<br /><br />I have developed a thick skin to assaults on freedom during the last years as both the country where I live (the United States) and where I am from (Brazil) are struggling with authoritarianism. But there is something about the rationale of the draft we have access to that felt like a punch in my stomach: Justice Samuel A. Alito says that women should not have abortion rights today because it was not customary for them to have those rights in the past. This justification erases the fight of women to obtain these rights - it is as if it had never existed. It erases us.&nbsp;<br /><br />It is hard to separate the fight for abortion rights from the fight to exist fully as a woman. My generation was already born into a societal structure that incentivizes us to act in whatever way we want because we are no different than men (even though I still deal with machismo on a daily basis). But my mom&rsquo;s and my grandmother&rsquo;s generations did not have that. Both of them suffered to exist in a patriarchal society that dictated what they thought and how they behaved. The fight for abortion rights signaled to society that our body is ours and no one else&rsquo;s. No individual or institution should tell us how to make decisions about ourselves. Does anybody tell men what they should think or do?<br /><br />As I was driving to work this morning I pondered on how I am supposed to be a citizen and take responsibility for this world when I&rsquo;m being denied my very existence. Pessimism had taken over me until I reached DC. By the highway, I&nbsp; saw a number of circulator bus drivers holding signs of protest as they are on <a href="https://www.nbcwashington.com/news/local/transportation/dc-circulator-bus-drivers-go-on-strike/3041187/" target="_blank">strike</a>. &ldquo;We move this whole region&rdquo;, one sign said. Yes, they do. And we, women, move this whole world. We continue to be citizens by imposing our existence (like the circulator bus drivers) in any way we can. We continue to be citizens by accepting our responsibility and taking ownership of the world.&nbsp;</div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre Arthur Lira, clientelismo, Schattschneider e expansão do conflito]]></title><link><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/sobre-arthur-lira-clientelismo-schattschneider-e-expansao-do-conflito]]></link><comments><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/sobre-arthur-lira-clientelismo-schattschneider-e-expansao-do-conflito#comments]]></comments><pubDate>Thu, 28 Apr 2022 17:48:25 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.beatrizrey.com/randomnotes/sobre-arthur-lira-clientelismo-schattschneider-e-expansao-do-conflito</guid><description><![CDATA[Em texto para a Folha de S. Paulo, eu e Mario Sergio Lima argumentamos que a melhor estrat&eacute;gia para combater os poderes excessivos do presidente da C&acirc;mara dos Deputados &eacute; fazer trabalho de oposi&ccedil;&atilde;o na base eleitoral daquele que ocupa esse cargo. Nosso argumento &eacute; ancorado no trabalho de E. E. Schattschneider, segundo o qual o resultado dos conflitos pol&iacute;ticos s&atilde;o determinados pelo seu grau de contagiosidade. Como escrevemos no texto, a pol&i [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div class="paragraph"><span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">Em </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2022/04/como-enfrentar-o-orcamento-secreto.shtml"><span style="color:rgb(17, 85, 204); font-weight:400">texto</span></a><span style="color:rgb(51, 51, 51)"> para a </span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">Folha de S. Paulo</span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">, eu e Mario Sergio Lima argumentamos que a melhor estrat&eacute;gia para combater os poderes excessivos do presidente da C&acirc;mara dos Deputados &eacute; fazer trabalho de oposi&ccedil;&atilde;o na base eleitoral daquele que ocupa esse cargo. Nosso argumento &eacute; ancorado no trabalho de E. E. Schattschneider, segundo o qual o resultado dos conflitos pol&iacute;ticos s&atilde;o determinados pelo seu grau de contagiosidade. Como escrevemos no texto, a pol&iacute;tica n&atilde;o funciona como um jogo de cabo de guerra (em que s&oacute; a for&ccedil;a de uma das partes determina quem ganhar&aacute; a disputa); quem assiste ao conflito tamb&eacute;m determina o resultado.&nbsp;<br /></span></span><br /><span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">Entretanto, algumas pessoas apontaram que seria in&oacute;cuo levar o trabalho de oposi&ccedil;&atilde;o para a base eleitoral de Arthur Lira, o atual presidente da C&acirc;mara. Isso porque o eleitor em Alagoas n&atilde;o se preocuparia com os mandos e desmandos de Lira, mas sim com as benesses que recebe via emendas or&ccedil;ament&aacute;rias (legais e ilegais). A cr&iacute;tica &eacute; bem fundamentada. A literatura em ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica aponta o baixo n&iacute;vel de desenvolvimento econ&ocirc;mico como uma das condi&ccedil;&otilde;es para a exist&ecirc;ncia de clientelismo. Faz sentido: em um pa&iacute;s em que muitas pessoas vivem com o m&iacute;nimo de dinheiro, os recursos das emendas or&ccedil;ament&aacute;rias representam ganho concreto e significativo. Um brasileiro que mora munic&iacute;pio de Inhapi (AL), cujo &iacute;ndice de desenvovlimento humano &eacute; baix&iacute;ssimo, n&atilde;o se importar&aacute; com esquemas de corrup&ccedil;&atilde;o de Lira se o seu munic&iacute;pio acaba de ganhar do mesmo uma ambul&acirc;ncia.&nbsp;<br /></span></span><br /><span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">Mario e eu pensamos em &ldquo;trabalho de oposi&ccedil;&atilde;o&rdquo; como embarcando uma s&eacute;rie de a&ccedil;&otilde;es. A princ&iacute;pio, seriam atividades de contesta&ccedil;&atilde;o: protestos, outdoors e at&eacute; shows como o que Caetano Veloso fez no Congresso em mar&ccedil;o para impedir a aprova&ccedil;&atilde;o de um projeto de lei. Mas tamb&eacute;m consideramos que organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil poderiam empenhar esfor&ccedil;os em campanhas de educa&ccedil;&atilde;o cidad&atilde;. O ideal seria que esse trabalho fosse feito pelo Estado. Mas &eacute; dif&iacute;cil at&eacute; pensar em levantar essa discuss&atilde;o diante do desmonte do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o no governo Jair Bolsonaro. O brasileiro m&eacute;dio pouco sabe como funciona o sistema pol&iacute;tico de seu pa&iacute;s: o que &eacute; o pacto federativo, qual ente federado &eacute; respons&aacute;vel por que parte de seu cotidiano, como o voto dele para deputado federal, estadual e vereador se traduz no dia-a-dia, etc. Uma organiza&ccedil;&atilde;o com a 342 Artes teria bra&ccedil;o pensar em uma a&ccedil;&atilde;o localizada de educa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica em munic&iacute;pios que s&atilde;o relevantes para a reelei&ccedil;&atilde;o de Arthur Lira.&nbsp;<br /></span></span><br /><span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">Fa&ccedil;o esse argumento com base na literatura de ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica*. A ideia de que o clientelismo est&aacute; associado a baixos n&iacute;veis de desenvolvimento socioecon&ocirc;mico aparece no trabalho de Samuel Huntington j&aacute; em 1968. Literatura mais recente explora a rela&ccedil;&atilde;o entre educa&ccedil;&atilde;o e/ou educa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica e clientelismo e/ou compra de votos. De acordo com </span><a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/ajps.12047"><span style="color:rgb(17, 85, 204); font-weight:400">esses autores</span></a><span style="color:rgb(51, 51, 51)">, a educa&ccedil;&atilde;o mina a compra de votos porque eleitores com n&iacute;veis educacionais mais altos est&atilde;o mais equipados para enxergar problemas sist&ecirc;micos e t&ecirc;m mais informa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica para discutir os custos sociais dessa pr&aacute;tica. Deixo mais refer&ecirc;ncias sobre trabalhos que exploram esse tema abaixo.&nbsp;<br /></span></span><br /><span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">O que eu estou sugerindo vai dar certo? N&atilde;o sei. Mas eu sou da turma que acha melhor tentar e dar errado do que n&atilde;o tentar e nunca saber o resultado.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span style="color:rgb(51, 51, 51); font-weight:700">Refer&ecirc;ncias</span><br /><br /><span style="color:rgb(51, 51, 51)">Carlin, R. E., &amp; Moseley, M. W. (2021). When Clientelism Backfires: Vote Buying, Democratic Attitudes, and Electoral Retaliation in Latin America. </span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">Political Research Quarterly</span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">. </span><a href="https://doi.org/10.1177/10659129211020126"><span style="color:rgb(0, 106, 204); font-weight:400">https://doi.org/10.1177/10659129211020126</span></a>.</span><br /><br /><span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">Fox, Jonathan. 1994. &ldquo;The Difficult Transition from Clientelism to Citizenship: Lessons from Mexico.&rdquo; World Politics 46 (2): 151&ndash;84.<br /></span></span><br /><span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">Greene, Kenneth F. 2021. &ldquo;Campaign Effects and the Elusive Swing Voter in Modern Machine Politics.&rdquo; Comparative Political Studies 54 (1): 77&ndash;109.<br /></span></span><br /><span><span style="color:rgb(42, 42, 42)">Pedro C. Vicente, Leonard Wantchekon, Clientelism and vote-buying: lessons from field experiments in African elections, </span><span style="color:rgb(42, 42, 42)">Oxford Review of Economic Policy</span><span style="color:rgb(42, 42, 42)">, Volume 25, Issue 2, Summer 2009, Pages 292&ndash;305.</span></span><br /><br /><span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">Stokes, Susan C., Thad Dunning, Marcelo Nazareno, and Valeria Brusco. 2013. Brokers, Voters, and Clientelism: The Puzzle of Distributive Politics. Cambridge: Cambridge University Press.<br /></span></span><br /><span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">Vicente, Pedro C. 2014. &ldquo;Is Vote Buying Effective? Evidence from a Field Experiment in West Africa.&rdquo; The Economic Journal 124 (574): F356&ndash;87.<br />&#8203;</span></span><br /><span><span style="color:rgb(51, 51, 51)">*Outros fatores podem explicar a transi&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica clientelista para a pol&iacute;tica program&aacute;tica, como configura&ccedil;&otilde;es e timing da forma&ccedil;&atilde;o do Estado, institui&ccedil;&otilde;es, arranjos de economia pol&iacute;tica e ideologia. Um resumo muito bom dessas perspectivas est&aacute; neste </span><a href="https://journals-sagepub-com.libezproxy2.syr.edu/doi/abs/10.1177/001041400003300607"><span style="color:rgb(17, 85, 204); font-weight:400">artigo</span></a><span style="color:rgb(51, 51, 51)"> de Herbert Kitschelt. Obviamente essas vis&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o mutuamente exclusivas. O meu pr&oacute;prio trabalho sugere o aparecimento de pol&iacute;tica program&aacute;tica na arena legislativa a partir da intera&ccedil;&atilde;o entre institui&ccedil;&otilde;es e ideologia.&nbsp;</span></span></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre o meu avô]]></title><link><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/sobre-o-meu-avo]]></link><comments><![CDATA[https://www.beatrizrey.com/randomnotes/sobre-o-meu-avo#comments]]></comments><pubDate>Wed, 13 Apr 2022 16:09:35 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.beatrizrey.com/randomnotes/sobre-o-meu-avo</guid><description><![CDATA[ Tenho pensado muito sobre a minha fam&iacute;lia desde que a minha av&oacute; Odete se mudou de sua casa em Peru&iacute;be para uma casa de repouso em S&atilde;o Paulo. Passei um m&ecirc;s em S&atilde;o Paulo entre dezembro e janeiro e pude visit&aacute;-la algumas vezes. Em uma dessas visitas, perguntei o que ela estava fazendo com tanto tempo livre. &ldquo;Eu penso na minha vida&rdquo;, ela disse. &ldquo;Voc&ecirc; pensa no v&ocirc;?&rdquo;, indaguei, ao que ela respondeu, &ldquo;No seu av&oc [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:302px;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.beatrizrey.com/uploads/1/1/8/0/118023146/published/285d1d23-0074-447d-a83a-7f7ac0741bb6.jpg?1649880419" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; border-width:1px;padding:3px; max-width:100%" alt="Picture" class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -0px; margin-bottom: 0px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="display:block;"><span><span>Tenho pensado muito sobre a minha fam&iacute;lia desde que a minha av&oacute; Odete se mudou de sua casa em Peru&iacute;be para uma casa de repouso em S&atilde;o Paulo. Passei um m&ecirc;s em S&atilde;o Paulo entre dezembro e janeiro e pude visit&aacute;-la algumas vezes. Em uma dessas visitas, perguntei o que ela estava fazendo com tanto tempo livre. &ldquo;Eu penso na minha vida&rdquo;, ela disse. &ldquo;Voc&ecirc; pensa no v&ocirc;?&rdquo;, indaguei, ao que ela respondeu, &ldquo;No seu av&ocirc; e em tudo o que eu vivi&rdquo;. Recebi a resposta dela com uma tristeza que n&atilde;o compreendi.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>Foi em busca de respostas para essa tristeza que peguei um calhama&ccedil;o de fotos antigas e trouxe comigo para c&aacute;. S&atilde;o fotos da casa dela no Campo Limpo, de reuni&otilde;es de fam&iacute;lia, de mim e do meu irm&atilde;o do meio pequenos, do meu av&ocirc; &ndash; muitas fotos do meu av&ocirc;. Tenho passado manh&atilde;s e noites olhando para essas fotos e escrevendo sobre o meu av&ocirc;.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>Ernesto Policicio era o nome dele, mas n&oacute;s o cham&aacute;vamos de Bol&atilde;o por conta da barriga de chope (e ele ent&atilde;o apelidou a minha m&atilde;e - que n&atilde;o tinha barriga de chope - de Bola).&nbsp; Meu av&ocirc; era, na m&eacute;dia, um sujeito quieto e solit&aacute;rio. Passava parte do tempo sentado no murinho da casa dos meus av&oacute;s ouvindo jogo ou m&uacute;sica sertaneja no seu radinho de pilha. A outra parte ele passava em um quartinho na laje que abrigava um barril de cacha&ccedil;a e tranqueiras (ningu&eacute;m lembra o que eram). &Agrave;s vezes, j</span>ogava domin&oacute; com o pessoal da borracharia em frente de sua casa.&nbsp;</span><br /><br /><span><span>De vez em quando, ele perdia as estribeiras. Uma vez, o cachorro dele (Neco ou Zulim, o nome variava de acordo com o dia) foi atacado por outro na rua. Ele entrou fulo da vida em casa pronto para pegar uma arma. &ldquo;Onde o senhor vai, seu Ernesto?&rdquo;, meu pai perguntou. &ldquo;Vou matar aquele cachorro filho da puta que atacou o Neco&rdquo;, ele esbravejou. Ainda bem que o meu pai estava l&aacute; para evitar a trag&eacute;dia canina. Outra vez minha m&atilde;e, ainda pequena, estava no banheiro tomando banho, e meu av&ocirc; precisava fazer o n&uacute;mero dois. &ldquo;Ai meu deus do c&eacute;u, ai minha virge maria, sai do banheiro, Bola!&rdquo;, ele implorava na porta do banheiro, como se o mundo fosse acabar.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>Ele cultivava curiosidade sobre o mundo. Trabalhou como mec&acirc;nico por anos, mas o desejo de ter um sal&aacute;rio melhor fez com que ele se esfor&ccedil;asse para ser fiscal de feira da prefeitura de S&atilde;o Paulo. Tinha uma m&aacute;quina fotogr&aacute;fica que usava para registrar a sua vida. Queria viajar com o passaporte que tirou na d&eacute;cada de 90, inclusive para a It&aacute;lia, de onde a fam&iacute;lia dele (complicad&iacute;ssima, parte da qual se suicidou) vem. Voltou para a escola para completar o ensino m&eacute;dio aos 50 anos e terminou o supletivo cheio de orgulho.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>O lado doce dele poucos conheceram. Vov&ocirc; comprou um gravador de fita cassete com microfone para eu e meu irm&atilde;o cantarmos nas tardes em que fic&aacute;vamos com ele. Vov&ocirc; tamb&eacute;m gostava de Natal porque via magia nas m&uacute;sicas natalinas. Vov&ocirc; se emocionava ao ouvir a m&uacute;sica &ldquo;No Woman, No Cry&rdquo;, de Bob Marley. Vov&ocirc; gostava de me ver comendo e dizer &ldquo;mangia che te fa bene!&rdquo;. Quando minha m&atilde;e teve o terceiro filho, vov&ocirc; a acalmou: &ldquo;filha, eu fico com o Tutu do jeito que fiquei com o Gui, voc&ecirc; vai poder continuar trabalhando&rdquo;.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>N&atilde;o deu tempo de ele cuidar do Tutu. Um dia, a asma e a bronquite o levaram para o hospital. Voltou de l&aacute; branco, quase transparente. Colocaram-no para dormir na sala da casa dos meus av&oacute;s. Ali, ele me chamou e pediu gelatina colorida. A &uacute;ltima imagem que eu tenho dele &eacute; esta: eu aos nove anos com os meu bra&ccedil;os pequenos e finos entregando um copo de sobremesa com gelatina colorida para ele. Nunca mais o vi. Um dia ele existia, no outro deixou de existir, e eu fiquei aqui, nessa terra, sem o av&ocirc; que eu tanto curtia ter.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>Em uma das fotos que eu trouxe comigo, estou comendo bisnaguinha e bolacha Maizena enquanto ele l&ecirc; o jornal na sala da casa dos meus pais. N&atilde;o sei dizer quantas horas j&aacute; passei olhando para essa foto. Ontem, olhando bem para ela, tentei decifrar o meu av&ocirc;: as frustra&ccedil;&otilde;es que as linhas do rosto dele escondiam; o gosto pela solid&atilde;o (ser&aacute; que &eacute; heredit&aacute;rio?); a rela&ccedil;&atilde;o dele com a bebida; o casamento aos trancos e barrancos com a minha av&oacute;; a inquietude que ele carregava mas n&atilde;o mostrava; o sentimento dele em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; pr&oacute;pria fam&iacute;lia; o significado de ser pai de dois filhos (minha m&atilde;e e meu tio) t&atilde;o diferentes; e a expectativa dele para o futuro para al&eacute;m de morar na beira da praia.&nbsp;</span></span><br /><br /><span><span>S&oacute; ent&atilde;o entendi a tristeza que senti quando ouvi a minha av&oacute; na casa de repouso: ao contr&aacute;rio dela, que permanece viva at&eacute; os 84 anos, o meu av&ocirc; n&atilde;o teve a oportunidade de pensar sobre o que viveu. Ele deixou de existir subitamente aos 65 anos, e com a sua ida, apagou-se a sua trajet&oacute;ria sem que ele pudesse pensar sobre ela. Por isso eu trouxe as fotos de fam&iacute;lia comigo. Por isso eu escrevo sobre ele. L&aacute; de cima, vov&ocirc; est&aacute; pensando sobre o que viveu atrav&eacute;s de mim.</span></span></div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>]]></content:encoded></item></channel></rss>